Desgraça se chamava isto antigamente, mas eu lhe chamei ventura

maio 22nd, 2012 Comentários desativados

“Ou a vida de S. Roque foi errada, ou todo o mundo é louco. Assim o dizia eu, não há muitos dias, e quanto mais considero nos passos que leva o mundo, e nos que seguiu S. Roque, tão encontrados, tanto mais me confirmo nesta verdade. Vejamos o que fez S. Roque na eleição da sua vida, e o que fizera no mundo em semelhante ocasião qualquer outro da sua idade, da sua fortuna e do seu nascimento. Foi tão venturoso S. Roque, que lhe faltaram seus pais antes de cumprir os vinte anos. Desgraça se chamava isto antigamente, mas eu lhe chamei ventura, por me acomodar à frase do tempo.”

Sermão de S. Roque, de Padre António Vieira. Ano 1652.

maio 22nd, 2012 Comentários desativados

É sintomático na medida que envelhecemos ou mesmo alternamos entre novas localidades, pelo menos numa altura em que isso acontece no mesmo ritmo que avançamos na idade, que o mundo ao nosso redor tenda a reformular o nosso nomes conforme o dispor da época e sob influência dos palpites da platéia que acompanha o nosso crescimento: uma espécie de gente sem consideração que, diga-se, não raras vezes, são os nossos próprio vizinhos ou parentes, e até com bastante frequência, amigos de infância. O mais comum, no entanto, é começamos com um apelido que seja a redução do nosso primeiro nome – se tivermos sorte; acontece de surgir também dessa concentração de criatividade um nome tão infeliz que chega a contrariar a nossa moral e indignar o nosso senso de identidade. Refiro-me, aqui, aos apelidos de mau gosto. Em todo caso, se tivermos ainda mais sorte, esses apelidos duram até trocarmos de bairro.

maio 22nd, 2012 Comentários desativados

Isso de acordar muito cedo e não ter o que fazer, Elvira, é um perigo. Um sujeito como eu acaba inevitavelmente se indispondo com a televisão e com os programas matinais todos como se aquilo fosse a filosofia ocidental e a física quântica juntos. A Ana Maria Braga irrita-me muito. Se eu tivesse alguma coisa para fazer, eu não passava por isso. O Ana Maria Braga que se fodesse com os seus bolos e discursos e me deixasse em paz pelo menos pela manhã. Como não tenho nada objetivo para fazer, veja a Ana Maria Braga, que, além de me dar nos nervos, ainda é do tipo de pessoa que se não dissermos o nome inteiro, ninguém reconhece. Entendo que é preciso respeitar os nomes, mas odeio o fato de ter que dizer os sobrenomes de uma pessoa. Não tenho memória para isso. Depois não há filosofia que sobreviva a acordar cedo e não ter nada para fazer.

maio 22nd, 2012 Comentários desativados

Nem soldado, nem domador de leões, nem paraquedista, nem toureiro, nem mecânico, nem faquir, nem alpinista, nem músico, nem escritor, nem policial, nem assaltante, nem agente secreto, nem correspondente de guerra, nem político, nem carcereiro, nem aqueles limpa-vidros de arranhas-céus, nem aqueles outros, também pouco ajuizados, que alimentam tubarões em alto mar na austrália, nem trapezista de circo de bairro, nem aqueles malucos que engolem faqueiros inteiros, mas que também se arriscam corajosamente com lâmpadas, mobilhas, souvenir, estofados, eletrodomésticos, colheres de sobremesa, enfim, talheres no geral, nada, absolutamente nada disso chega aos pés da profissão mais arriscada do mundo – que é, bem feita as contas, a de contador.

Canção para passar o chapéu

maio 13th, 2012 Comentários desativados

Canção para passar o chapéu

Em sua fazenda na Iásnaia Poliana
viveu por muitos anos o Conde Leon Nicolaievich Tolstoy
sem  jamais se barbear – andava sempre descalço
Deus o tenha em seu santo reino
só comia cenouras cruas

Vocês hão de se perguntar quem sou eu
com esta barba branca tolstoiana
pedindo esmolas na via pública
Ah!… sou um dos seus netos legítimos

A Revolução foi dura comigo
de modo que vou dizer uma coisa ou outra
que cada um me dê o que pode
(aqui se encontra o meu chapéu)
tudo me serve nem que seja um kopek

Ah… se não lhes contasse todo meu sofrimento
imaginem um neto de um Conde
pedindo esmolá na via pública
É coisa para botar os cabelos em pé!

Além disso, minha mulher se foi com outro
me deixou por um capitão do exercito
sobre o pretexto de que sou paralítico
não negarei que sou paralítico
- Tremo como uma folha na tormenta -
entretanto me parece que não se pode romper
um sacramento da Santa Igreja Católica
como quem estoura balões coloridos:
Há mulheres no século XX
que deveriam demasiar de vergonha

Compadeçam-se desse pobre encorneado
não disponho de outra fonte de renda

De modo que vou dizer uma coisa ou outra
sofro de uma enfermidade incurável
contraída na mais terna infância:
tenho o lado esquerdo paralisado
posso morrer a qualquer momento

A minha enfermidade se chama encefalítis letárgica

Para completar meus problemas
acabei de ser operado da vesícula
se quiserem lhes mostro a cicatriz

Ah… não tenho paz em lugar nenhum
de modo que vou dizer uma coisa ou outra
os mendigos do bairro me perseguem atirando pedras
é preciso ser muito mal criado
para rir-se de um pobre velho maltrapilho
que não tem onde cair morto
Se o meu querido avô estivesse vivo
eu não teria que andar por aí pedindo esmolas
Outro galo muito diferente me cantaria!

Que seja dito de passagem, tenho que juntar 17 dólares
antes que os saqueadores cheguem
para pagar minhas doses de heroína
para bom entendedor poucas palavras
se não me deram por bem
vão ter que me dar por mal
de modo que vão ter que escolher uma coisa ou outra
eu sou bem crescidinho nas minhas coisas
mão para cima seus maricas de merda
passa tudo logo ou vou meter a porra

Nicanor Parra. Folhas de Parra (Santiago, Ganímedes, 1985) . Mal traduzido pelo Almada.

Canción para pasar el sombrero

En su granja de Iásnaia Poliana
vivió muchos años el conde León Nicolaievich Tolstoy
no se afeitaba jamás – andaba siempre descalzo
Dios lo tenga en su santo reino
sólo comía zanahorias crudas

Ustedes se preguntarán quién soy yo
con esta barba blanca tolstoiana
pidiendo limosna en la vía pública
ay!… yo soy uno de sus nietos legítimos

La Revolución ha sido dura conmigo
para qué voy a decir una cosa por otra
que cada cual me dé lo que pueda
(aquí se empieza a correr el sombrero)
todo me sirve aunque sea un kopek

Ay! … si yo les contara todos mis sufrimientos
imaginen el nieto de un Conde
pidiendo limosna en la vía pública:
¡es para poner los pelos de punta!

Además mi mujer se fue con otro
me dejó por un capitán de ejército
so pretexto de que soy paralítico
no negaré que soy paralítico
-¡tiemblo como una hoja en la tormenta! -
pero me parece que no se puede romper
un sacramento de la Santa Madre Iglesia Católica
como quien rompe globos de colores:
hay señoras mujeres en el siglo XX
que se debieran desmayar de vergüenza

Compadézcanse de este pobre cornudo
no dispongo de otra fuente de ingresos

Para qué voy a decir una cosa por otra
sufro de una enfermedad incurable
contraída en la más tierna infancia:
tengo todo el lado derecho paralizado
me puedo morir en cualquier momento

Mi enfermedad se llama encefalitis letárgica

Para colmo de males
acaban de operarme de la vesícula
si les parece les muestro la cicatriz

Ay! … no tengo paz en ninguna parte
para qué voy a decir una cosa por otra
los pelusas del barrio me persiguen tirándome piedras
hay que ser bien caído del catre
para reírse de un pobre viejo zarrapastroso
que no tiene ni dónde caerse muerto
Si mi querido abuelo estuviera vivo
yo no tendría que andar pidiendo limosna
¡otro gallo muy diferente me cantaría!

Dicho sea de paso tengo que juntar 17 dólares
antes que me venga el ataque
para pagar mi dosis de heroína
a buen entendedor pocas palabras
si no me dan por la buena
van a tener que darme por la mala
para qué vamos a decir una cosa por otra
yo soy bien hombrecito en mis cosas
arriba las manos maricones de mierda
vamos saltando o les saco la chucha!

Nicanor Parra. Hojas de parra (Santiago, Ganímedes, 1985) 

Nicanor Parra

maio 12th, 2012 Comentários desativados

Aqui não se respeita nem a lei da selva

maio 12th, 2012 Comentários desativados

Antes do ônibus chegar, sentou-se ao meu lado um senhor muito gordo e gripado com um ar terrivelmente idiota, Elvira. Esse homem sentou-se ao meu lado coçando continuamente o nariz como se fosse um cocainômano. Era do tamanho de um edifício residencial e ocupava, sentado, o espaço de dois bancos inteiros; e eu, que sou um magricela com cara de operário e muito mais cabelo nas canelas do que é recomendado pela medicina veterinária, me alojei em não mais que três quartos dum banco azul claro da mesma dimensão. E ao meu lado esse lutador de sumo gripado, sem poder por alguma razão espirrar, fazendo um barulho irritante de sucção pelas ventas. Como o ônibus demorava a aparecer, comecei a criar expectativas daquele evento eminente, o espirro: – seria possível um homem explodir àquelas horas da tarde? Para mim, era como uma tromba d’agua que se anunciasse no horizonte. Seria um estrondo profundo seguido dum breu fluvial. O homem tinha uns ombro tão largos quanto uma pratilheira de livros usados e era da altura de um São Bernado de pé – e estava constipado, Elvira. O seu nariz coçava e ele o esfregava, contorcendo o rosto com entusiasmo, dando a crer que aquele gesto era o prenúncio do apocalipse bíblico. O ônibus demorava e eu já queria que não viesse antes que aquela cena se completasse. Fiquei curioso. Pensei comigo se era o caso de perder o ônibus só para ver o homem espirrar – e confirmei ainda comigo mesmo que era, sim, o caso. Finalmente, Elvira, o sujeito puxou o ar para dentro com toda força, projetou o pescoço para trás e fechou os olhos. O meu entretenimento cultural agora parecia chegar a um clímax cinematográfico muito raro. Eu me afastei um pouco para o lado esquerdo, de maneira a, além de a dar espaço àquele brutamontes, salvar a minha preciosa vida. Imaginei que se ele tampasse o nariz inflaria e sairia voando como um balão de hélio pelo centro da cidade, chocando-se continuamente com edifícios residenciais velhos – na melhor das hipóteses. Logo a seguir, ele fez o movimento de retorno do pescoço, curvou a cabeça para frente e finalmente espirrou. E que decepção, Elvira. Confirmei que a filosofia está certa: uma grande expectativa frusta qualquer pequena esperança. Você não imagina que saiu um sofisticado apito de trem, um sutil suspiro de novela, um alfinete delicado de espirro. Coisa de moça. Deus, que decepção. Onde estava a corrente de ar que se projetaria daquelas narinas musculosas e varreria as calçadas como os cavaleiros do juízo final? Nada, Elvira, foi só um pif diminuto e constrangedor. Eu queria que o mundo acabasse e o que vi foi o suspiro da Rita Hayworth. Senti-me, sinceramente, no fosso do anticlímax duma expectativa inteiramente frustrada. Perdi o dia. Virei para o lado e voltei a esperar o ônibus, que veio logo a seguir. Tomei a condução e voltei para casa.

Eu sou um pouco o Asimov do meu bairro

maio 1st, 2012 Comentários desativados

O sistema de troca de cartas, como se sabe, morreu. A enciclopédia, como foi anunciado recentemente, também. Os dicionários – previsão pessoal – estão para virar, num futuro próximo, se tudo caminhar nessa direção ou até que inventem um sistema melhor que o atual de busca de palavras per si, coisa non grata nos sebos por aí espalhados, como os livros de processo civil de 1985 ou os guinessbooks de qualquer ano. Os objetos, por mais eternos que pareçam, correm sempre o risco de perderem o uso mais imediato. Mas imagino que não seja interessante lamentar por isso. Em certo sentido, nem as cartas, nem a enciclopédia, nem os dicionários deixaram de nos interessar. O pior que se pode dizer é que ganharam uma roupagem mais antipática e usuários mais displicentes.

No caso das cartas, há um aspecto interessante de análise. Tomem o letters of note como exemplo. Há ali uma séria de missivas importadas de arquivos pessoais que foram disponibilizadas pela família – ou seja lá quem for o responsável – para o bom deleite do cidadão comum. Em muitos casos, o autor delas nem sequer imaginava que algum dia essas benditas pudessem chegar ao conhecimento público. Na nossa concepção popular e atual, um morto não tem o menor poder de decisão sobre suas vontades quando em vida. Pelo contrário: nos anima, hoje, a ideia de esmiuçar a vida do próximo até o limite mais pornográfico e secreto da sua intimidade, justamente porque somos todos uns alcoviteiros do caralho. Desse modo, vemos com muito prazer as cartas que na altura eram secretíssimas ou muito bem guardadas. Isso, ao meu ver, é absolutamente interessante. Se esticarmos o conceito para daqui a, digamos, 50 anos, teremos a possibilidade de ter as nossas contas de email abertas a visitação sem, no entanto, que isso custe absolutamente nada a absolutamente ninguém – no futuro, como se sabe, tudo será absolutamente de graça e ninguém vai pagar absolutamente nada. Não posso escapar de demonstrar pessoalmente um certo desconforto com essa ideia. O conceito é mesmo assustador. Uma visita, por exemplo, ao meu email provocará tantas náuseas quantas forem possível a um estomago vazio. Não falo de nojo, mas tédio e, muitas vezes, de desprezo. Eu pontuo, salvo raras exceções, os meus emails com o que há de pior na gramática moderna. Além disso, distribuo palavrões como quem oferece goma de mascar no semáforo. Assim, no momento que eu tiver a mais clara noção de que posso, abruptamente, passar dessa para melhor, pretendo reivindicar o uso dos meus email apenas para fins medicinais: digamos que alguém queira passar por um tipo de regime de emagrecimento menos radical do que a intervenção cirúrgica, irá no futuro poder perder o apatite só lendo as minhas correspondências.

Mas o problema pode ficar ainda mais radical se imaginarmos a fonte de onde os biógrafos do futuro ponderam arrancar informações nossas numa eventual biografia – da nossa, ou das pessoas importantes que mereçam uma biografia. Bom, para já, é preciso acreditar que haverá biografias no futuro. Nada mais incerto. O que tudo indica é que a superpopulação recente de autobiografias só tende a tomar volume e abarrotar estantes. As pessoas querem mais é saber delas mesmas. Depois, é possível que suma o interesse pela biografia, já que todos nós estamos equipados para prepara a nossa própria e do jeito que bem entendermos: só com elogios e likes, com a nossas palavras, imagens, layout, capa e tal: o artifício chama-se timeline e é um mecanismo já muito utilizado, se vierem a querer saber do que se trata.

(de repente, vejam como as coisas são, entrei num labirinto argumentativo e já estou embebido do espirito de um sociólogo moderno preocupado em criar caso com os comportamentos vulgares dos outros. Logo eu. Enfim, volto a isso assim que o espírito do lucius da sociologia decidir pousar em outro ombro)

abril 27th, 2012 Comentários desativados

O gosto médio é pior que o mau gosto, como diria Ariano Suassuna.

abril 27th, 2012 Comentários desativados

Não há proprietários da línguas: há usuários da língua. E há bons usuários e maus usuários, como em tudo. No estado atual das coisas (que é uma frase vazia de sentido muito frequentemente escrita por péssimos usuários – que inclui a mim, caso se tenha a curiosidade de saber e não encontrem a quem perguntar) no estado atual das coisas, dizia, os que são tidos como donos da língua, com todo o seu poder normativo auto intitulado, não são muitas vezes nem bons usuários da língua. Mas uma norma, querendo ou não, determina um uso. Assim, mesmo os falsos proprietários acabam por mandar um pouquinho no território que lhe é permitido: o da ortografia. Vale a pena lembrar que a ortografia, por mais proeminência que lhe deem, só é uma perna da língua – por acaso a direita, que chuta – mas não o corpo da linguagem.

Saul Bellow

abril 27th, 2012 Comentários desativados

abril 8th, 2012 Comentários desativados

What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the
moon of the jagged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked
long and long at the lonely moon.
I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts
that living men have honoured in bronze:
my father’s father killed in the frontier of
Buenos Aires, two bullets through his lungs,
bearded and dead, wrapped by his soldiers in
the hide of a cow; my mother’s grandfather
–just twentyfour– heading a charge of
three hundred men in Peru, now ghosts on
vanished horses.
I offer you whatever insight my books may hold,
whatever manliness or humour my life.
I offer you the loyalty of a man who has never
been loyal.
I offer you that kernel of myself that I have saved,
somehow –the central heart that deals not
in words, traffics not with dreams, and is
untouched by time, by joy, by adversities.
I offer you the memory of a yellow rose seen at
sunset, years before you were born.
I offer you explanations of yourself, theories about
yourself, authentic and surprising news of
yourself.
I can give you my loneliness, my darkness, the
hunger of my heart; I am trying to bribe you
with uncertainty, with danger, with defeat.

Jorge Luis Borges (1934)

março 22nd, 2012 Comentários desativados

Um escritor atento percebe logo que para um tipo específico de escrita não exite o artifício do sinônimo. Uma palavra não substitui outra. Só há uma palavra ou um remendo.

março 17th, 2012 Comentários desativados

Só há dois modos de lidar com o tempo: perdê-lo ou desperdiçá-lo.

março 4th, 2012 Comentários desativados

Esse é o semestre, talvez da minha vida inteira, que tenho visto menos futebol. Fique uns messes sem televisão, é certo, o que deve ter me desabituado a fazer as coisas certas nas noites de quarta-feira. Bons tempos, bons tempos. Hoje tentei ver um jogo para recuperar a velha forma, mas dormi durante todo o primeiro tempo; só acordei, do nada, com um gol do Santos no início do segundo tempo. Não foi animador.

Previsões

março 3rd, 2012 Comentários desativados

Sinto-me bem, apesar de uma leve dor de cabeça. Mas estou bem. Sinto, aliás, que vou escrever durante todo o final de semana. Sinto que estou prestes a engatar cinco posts: um e mais um, e mais três, conforme o prometido. Sinto que vou gostar de todos eles. Sinto mais: que vou adorá-los. Por cinco minutos. Sinto que vou dormir e, ao meio do sono, lembrar que escrevi alguma coisa esquisita. Um erro ortográfico. Uma ideia estúpida. Uma piada sem graça. Sinto que vou querer apagar esse deslize, mas não vou poder, pois segunda é dia de acordar cedinho. Sinto que vou tomar o metro para trabalho embebido na ideia de estupidez e pretenciosismo. Sinto que vou apagar um post. Sinto mesmo agora, como se já estivesse escrito. Sinto que vou pensar em escrever melhor, mas fora de alcance e num lugar remoto. Prevejo tudo isso. Entretanto, sinto-me bem, mas essa dor de cabeça acaba por me deixa indisposto.  No entanto, escreverei. Cinco posts. Não sei sobre o que – nunca sei. Mas também, só porque agora estou com dor de cabeça, não vou fingir agora que isso tem importância.

fevereiro 19th, 2012 Comentários desativados

O meu problema com a filosofia, e também o dela comigo, é que sou estupidamente mais susceptível à qualidade literária de um texto do que ao conteúdo do está posto em questão, o que pode ser uma charmosa armadilha estética aos que, diferente de mim, fazem o que é mais apropriado no que se refere à análise de um argumento. Na minha conturbada imaginação, um texto bem escrito já compraz todas as minhas necessidades básicas de entretenimento, no que o conteúdo só raspa o meu inconsciente, que é bastante mal frequentado, sem me chamar à devida atenção – a menos que o texto se trate de uma evidente estupidez, claro. Mas mesmo nisso eu tenho dúvidas. Vejamos o caso do estilo, por exemplo. Há quem consiga desassociar cirurgicamente o estilo do escritor e o próprio escritor como se fossem duas terras estrangeiras unidas por uma ponte móvel. É como se o escritor pudesse carregar o seu modo de escrever numa valise e, quando fosse necessário, retirasse de lá uns instrumentos de medição capazes de produzir na medida exata o seu texto, conforme o seu dispor. Eu tenho para mim que isso é uma interpretação equivocada. Se o escritor opera realmente por esses meio, é certo que o seu estilo uma hora soará como um artifício, que, na minha linguagem, é o mesmo que dizer que soará falso. Logo, o autor não tem estilo nenhum. Tem uma técnica, quando muito; o que é diferente. E uma técnica é sempre, no meu universo, anti-pessoal, fria e forçosa. No meu entendimento, o estilo é a aproximação mais autentica  entre a personalidade do homem (em itálico) que escreve e o que finalmente se vê no papel. E, voltando ao que eu acabei de dizer,  e à guisa da conclusão, como geralmente escrevo em coisas da faculdade, um texto muito mal escrito só pode vir de um cabeça mal ajeitada para a tarefa de escrever. Portanto, um filósofo que escreva muito mal é alguém que não produz um efeito completo relacionado àquilo que pretendia, o que gera normalmente interpretações dispares,  não raro bastante opostas. Ou seja, se se pode tirar interpretações muito opostas dum mesmo texto, por pessoas de bom coração, meu senso de que na verdade o filósofo não passa de um incrível engodo fica em luz vermelha. Nesse sentido, eu acredito, positivamente, que a qualidade estética do texto diz uma parte do seu argumento, nem que seja por meio de um leve sussurro ao coração. O grau que isso pode ser observado e até que ponto essa tese é comprovável é que eu, infelizmente, não faço a menor ideia.

Conselhos que valem a pena

fevereiro 13th, 2012 Comentários desativados

Entre a extinção do acento agudo em “pára” e a legitimação do nosso corriqueiro “pra” como um variante aceitável para o rígido – adivinhem – “para”, a nova ortografia preferiu encaixotar a primeira alternativa, pra minha tristeza. Fora isso, veia e veia (uma variação fanhosa de velha) agora são a mesma e única coisa, visualmente. Há tempos, Clarice Lispector,  a pedindo de Rubem Braga, um homem atento, trocou o título do romance A veia no pulso para A maça no escuro, pois A veia no pulso soava como Aveia no pulso. Bem notado. Ninguém quer ter sucrilhos no sangue.  Não sabia ele que, tempos depois, o título soaria também como A veia no pulso (traduzo para a nova ortografia: a velha no pulso). O que seria A veia no pulso? Seria um romance sobre um sujeito saudoso com enorme afeto pela avó e uma tatuagem estranha entre o radio e a ulna, ali bem no pulso? Bom, aveia,  a veia ou mesmo a véia (em português antigo) a verdade é que  há conselhos providenciais.

Nelson

fevereiro 6th, 2012 Comentários desativados

 

1ª parte

2ª parte

Video encontrado no arquivo nacional dos Estados Unidos, segundo dizem aqui.

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fevereiro 5th, 2012 Comentários desativados

Na minha contabilidade, se a cada hora de exercícios físicos ganharmos meia hora em longevidade, perdemos meia hora de vida.

A pedra e a pena

janeiro 24th, 2012 Comentários desativados

De certo modo, cada espécie de pretendente a artista inspira um tipo de pena diferente.  O escritor, em especial, produz uma pena curiosa. Aliás, uma reflexão prévia: o fato de uma pessoa sustentar a ideia de ser um autor é uma questão ainda pouco estudada pelas ciências psiquiátricas, ao meu ver, apesar de ser um tema tão rico. Mas a verdade é que há quem se encante com a ideia. Bom, é cada vez menos frequente a cada década que passa, mas há. E a explicação me parece vir do modo como as pessoas se aproximam dessa escolha: admiram mais o cargo que a função. Há uma dose de romantismo pouco comum aqui, que merece ser esmiuçado. Como se sabe, o cargo é pomposo, a função é árdua e o ordinário é baixo. Mas a pompa, o fetiche, o ar, enfim, as aparências ofuscam o trabalho que dá e a remuneração que se recebe por ele.

Ao contrário do músico ou pintor, o escritor tem uma vida só meio desgraçada, que é onde arranja os meios (salário) para alimentar as esperanças do dia que aquilo que ele ainda não escreveu ser lido por alguém que não existe nem enquanto possibilidade: a esperança de ter aquilo que, no estrangeiro, chamou-se de leitor. Não há leitores como antigamente, nem antigamente. Enquanto isso não chega, procura fazer hora como corretor imobiliário, advogado, bibliotecário, funcionário público, jornalista esportivo, médico psiquiatra, escriturário,  como uma maneira formal de levar a vidinha, além de uma boa oportunidade de transformar essa realidade bruta, seca, dura, sufocante em ficção ruim (que ele não sabe que irá produzir ainda, mas prefere pensar que não). O risco e a falha lógica do pensamento de quem pretendente ser escritor é que ele pensa, age e se relaciona com o mundo como quem está dentro do próprio projeto – e é certo, porque geralmente está. Mas o projeto é medonho. E é medonho porque é parte da vida e está emaranhada a ela. Curioso é notar como isso o difere dos outros casos, onde a aceitação do público (músico), o financiamento do projeto (diretor de cinema) são imediatos e se sobrepõem as pequenas ilusões que a vida disponibiliza. Mas – suponho que assim pensa o escritor – é fácil recorrer a ilusão que os seus pares do passado também foram assim, pessoas normais, cotidianas, reles, com os mesmos problemas, que tinham um trabalho banal, as bebedeira do costume, mas eram, quando se foi ver – e como ficamos sabendo depois em bibliografias póstumas ou em resumos do wikipédia -, no fundo uns gênios. Ledo engano. O escritor tem muita biografia, mas pouca vida. Costuma ter todos os traumas humanos possíveis, as bebedeira, os divórcios, as falências, as amantes, os vícios, os desvios, as dívidas (sobretudo essas, e bastante) mas só são bons naquilo que fazem ao lado da vida, aparte a ela, que é escrever.  A vida mesmo só serve para juntar frustrações.

Cá entre nós

janeiro 23rd, 2012 Comentários desativados

Abrir uma conta virtual no wordpress não é diferente de abrir uma conta real num banco popular: é sempre inadimplente, custa a preencher e, quando não está negativa, o saldo residual é uma vergonha. Publicamente, esperamos que o extrato bancário nunca seja lido por ninguém – nem pela diarista, que esvazia o bolso das nossas calças; nem pelos nossos pais, que pagaram com esforço uma educação cara; muito menos pelos nosso amigos, a quem devemos um tanto.

Sutilezas

janeiro 23rd, 2012 Comentários desativados

Um homem conversava ao lado da calçada quando, sem se dar conta, deu um pequeno passo para trás e foi carimbado frontalmente por um ônibus  (linha Aeroporto-Perdizes, via av. Jabaquara) de número 875M 10. Antes de desfalecer, ergueu o braço esquerdo e fez um sinal de OK com o polegar e indicador.

Kim Jong Un

janeiro 23rd, 2012 Comentários desativados

Kin Jong Un é um baixote, gorducho, de vinte anos e poucos anos (como eu),  sem barba (será virgem?) e, como se diz no jargão dos recursos humanos, sem experiência comprovada ou duradoura no campo da liderança. No ocidente, é o perfil do jovem desempregado europeu típico, sem assistência social, projetado da janela pela família a um mercado de trabalho vazio. Na europa, seria um quase adulto, obeso, deprimido  a vomitar batatas fritas e a salivar os litros de coca-cola do almoço, enquanto a mãe lhe lava as cuecas implorando que vá procurar um emprego, qualquer que seja, e na volta, caso não tenha encontrado, que pelo menos forre a cama, porque não custa nada. Entretanto, nascer na Coreia certa, com os pais certos, no regime adequado, ofereceu ao nosso papadas a vantagem de poder assumir o controle dumas arminhas nucleares radioativas para estourar na época do ano novo, ou para dar um susto num partidário distraído – talvez, quem sabe, impressionar uma partidária e fazer com que ela não note logo de cara a salutar, exuberante, proeminente, circunjacênte,  burguesoíde, barriginha hereditária, que envergonha porque deixa a farda cáqui estufada. O nosso jovem papadas é ditador, na sua forma mais conhecida – e se parece com o Nhonho do chaves. Para sermos mais precisos, é um tiraninho de merda com um sobrepeso do caralho e umas fuças redondas bem esquisitas. Comparando biografias, o gordito papadas, tem, como eu disse antes, a minha idade (mais ou menos), um país e um potente arsenal bélico.  Foi laureado com o título de ‘Herói nacional’, ‘Querido líder’, ‘Grande sucessor’ (na coreia, o primeiro que apontar a ironia do título, vai preso ou pior) ‘Rei da estrela matinal’ e outros tantos, e já é a essa altura o homem mais premiado desde o Gonçalo M Tavares. Para um balofo iletrado, sem condicionamento físico, não parece pouco – digo em relação ao Kin Jong Un, que o Gonçalo Tavares é um bom escritor. Na linha familiar, sucede o pai, Kim Jong il, que provavelmente era anão, sem os saltos que usava. (Há pelo menos dois casos que me vem agora a mente de ditadores que sabotavam na altura com tamancos de pau: Kim Jong Il e o Castelo Branco, mas deve haver mais).  Pelo que contam, o preterido para a suceder o pai era o mais velho, mas foi posto de lado, pois suspeita-se que uma vez tentou ir a Disney, esse berço do capitalismo pré adolescente. E também porque era afeminado, segundo dizem. Sobrou o pequeno rapaz, o papadas, esse, que deve ser virgem, com o seu sobrepeso, as suas fuças e a minha idade. A minha idade.  Os meus vinte e tal anos (26). Não há nada mais assustador do que um regime totalitário.

O primeiro post

janeiro 23rd, 2012 Comentários desativados

Sou metade pessimista, metade resignado. Na metade pessimista,  sei que vai dar errado. Na metade resignado, não deixo de fazer.

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